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Lanchonetes preservam pratos e bebidas antigos

5 de setembro de 2008

culinária tradiciona

Pedro Pereira: na Lanchonete Tony, a tradição é mantida. Lá, o freguês encontra o pega-pinto, feito de uma planta medicinal, explica o proprietário, João Bosco  JULIANA VASQUEZ

Pedro Pereira: na Lanchonete Tony, a tradição é mantida. Lá, o freguês encontra o pega-pinto, feito de uma planta medicinal, explica o proprietário, João Bosco JULIANA VASQUEZ

Os hábitos de comer e beber típicos do Ceará aos poucos foram sendo trocados pelos produtos industrializados

Que tal um mocotó regado a um refresco de pega-pinto, uma cambica estupidamente gelada ou ainda um mocororó no capricho? Os mais jovens respondem questionando: “que diabo é isso?!”. Para os com mais de 50 anos de idade, o convite relembra os “velhos tempos”. Alguns se saem com essa: “é o novo!”. Os mais saudosistas afirmam que as iguarias da culinária cearense têm gosto da infância e juventude.

É o caso do funcionário público federal Torquato Prisco. Leitor assíduo do Diário do Nordeste, ele enviou sugestão de pauta para o Alô Redação sobre o assunto. Torquato representa os que como ele, nos anos 60/70 do século passado, quando o calorão “fritava ovo no asfalto”, recorria a um pega-pinto bem gelado na Praça do Ferreira, no Centro.

“Nessa época, o refresco foi ficando bem famoso entre nós e encontrado com facilidade, mas de lá pra cá, foi rareando”, relata. Ele tem razão. Achar essas iguarias dá um trabalhão danado. Principalmente as opções com nomes tão estranhos e esquisitos como a tumbança, o murici ou o curau.

No entanto, pelo menos em três locais no Centro de Fortaleza é possível saborear essa culinária que fez parte dos costumes e tradições cearenses: na Pastelaria Tony, Lanchonete Dedé e no Café Asteca.

Preservação

Na Lanchonete Tony, na Rua Pedro Pereira, a “maneira antiga” é mantida. Lá, o freguês pode encontrar o pega-pinto. O tal refresco é feito de uma planta medicinal, “excelente para os rins e para afinar o sangue”, diz o proprietário do lugar, João Bosco. Para quem pensa que é coisa rara, engana-se. A lanchonete vende, em média, oito litros do refresco por dia. “Os mais velhos procuram mais e muitos trazem seus filhos ou netos para provar”.

O motorista Wilson Silva confessa que gosta do refresco e toma um copo com prazer. “Parece aluá”, compara ele, pagando R$ 1,00 pelo pedido. A planta originária do pega-pinto tem esse nome porque produz em seus ramos um visgo onde os pintos ficam presos. “O povo observa e sabe dar os títulos certos para as coisas”, diz.

Preferência

Os refrescos de murici e de jenipapo e o caldo-de-cana com pastel também são apreciados pelos fregueses do lugar. “Agora não é tempo de murici, mas no início do ano tem muita gente que vem aqui somente para tomar uns copos”, diz o proprietário.

De tão raros, o mocororó, a tumbança e a cambica foram sendo deixados de lado na preferência dos consumidores, mesmos àqueles que ainda guardam na memória a maneira como eram preparados. Os primeiros à base de caju e rapadura, o último tem o muriti (palmeira cujo fruto é amarelo) como ingrediente principal.

Os hábitos e costumes mudaram, analisa o autor da sugestão de pauta, no entanto, é muito agradável saborear a culinária tradicional do passado. Quem, com mais de meio século de vida, não se recorda do rolete de cana; bulim; algodão doce; grude; arroz doce ou maria maluca. Muitos dos pratos preparados no fogão a lenha, com abanador e tudo. “Faz parte da história de muita gente e é tão bom preservar coisas boas”, considera Torquato.

VOCABULÁRIO

Pega-pinto – refresco feito com raiz medicinal. Coloca a plantinha de molho em água, fermenta, coa e acrescenta gengibre e rapadura.

Mocororó – suco puro do caju com rapadura (não usa água)

Tumbança –
sumo do caju, castanha assada e pilada e açúcar

Curau – mingau de milho

Cambica – muriti (tipo de palmeira) espremido em uma peneira com água e adoçado com rapadura

Lêda Gonçalves
Repórter

Autor da Pauta
Torquato Prisco
• 56 anos
• Funcionário público Federal
• Enviado em 28/08/08
Fonte http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=569556

 

 

 

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