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Símbolo maior dos cearenses

28 de agosto de 2008

DOCUMENTÁRIO
A história de um dos pontos mais representativos de Fortaleza ganha destaque no documentário “Flertando com a Praça”

O documentário, com direção e pesquisa da professora Erotilde Honório e de Roberto Bomfim, mostra a importância da Praça do Ferreira como um lugar de discussões, manifestações, poesia, intelectualidade, alegria e da molecagem cearense. Lugar de encontros e desencontros, de acontecimentos fatídicos. Palco de fatos que marcaram a história de Fortaleza. “Flertando com a Praça” mergulha no coração da cidade, resgatando um dos maiores símbolos da capital. Uma produção que será exibida hoje, às 19h30, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro. Com 40 minutos de duração, o documentário revela a curiosa relação do povo com a praça – e da praça com a cidade. Tudo feito de forma cronológica.

O objetivo é ressaltar o valor da Praça do Ferreira enquanto símbolo histórico e divulgar, junto às instituições de ensino, a importância do lugar. Também existe a preocupação em promover uma discussão crítica entre personalidades de diversas áreas, acerca de sua importância social, econômica e cultural, para a história de Fortaleza. Para a professora Erotilde Honório, com este documentário, o Grupo de Pesquisa História e Memória da Cultura e dos Meios de Comunicação, da Unifor, envereda pela essência da cidade, dos monumentos, das praças, no sentido de resgatar a memória e revisitar nossa identidade.

“São histórias que dizem muito de nossas raízes, costumes, do modo de ser cearense. E a Praça do Ferreira, como monumento material e em suas múltiplas versões – quatro até hoje -, guarda muito de nossa história. E estamos resgatando isso pelos depoimentos de nossos velhos memorialistas, que conhecem bem a praça”, avalia a professora. O documentário, portanto, também promove, com esses depoimentos, um resgate da história imaterial da Praça do Ferreira. “Com estes registros, estamos impedindo que o conhecimento dessas pessoas caia no esquecimento, se perca na vala comum”, justifica.

Desconhecimento
Erotilde Honório lamenta que as pessoas desconheçam a Praça do Ferreira e outros espaços significativos da capital. “Atualmente, os jovens da Fortaleza urbanizada, modernizada e pós-modernizada não conhecem sua cidade. O jovem que só vai de casa para a universidade ou para o shopping e a praia não tem um conhecimento sequer geográfico de sua cidade”, afirma. E o documentário, segundo ela, apresenta um espaço importante de nossa capital e vai além do conhecimento geográfico. “O documentário traz informações sobre a cultura, o modo de falar, a molecagem do cearense. Revela muitas histórias envolvendo a praça, algumas acontecidas, outras inventadas, mas todas importantes para se conhecer nossa história”, conclui Honório.

Na avaliação de Roberto Bomfim, o mais importante do documentário é a questão social, no que se refere ao quaestionamento quanto às relações humanas. “A Praça não serve mais para o intuito que se propunha, que é a questão da unidade, de um olhar no olho do outro, conversar, mostrar sua face. Então é importante abrir a discussão não só sobre a situação da Praça do Ferreira, mas de outros logradouros públicos da cidade, que hoje só costumam ser visitados em eventos específicos, como Natal, Carnaval. E não deveria ser assim. Como dizia Castro Alves, a Praça é do povo. E ele estava certo”, ressalta o responsável pelo documentário.

Confraria
No caso da Praça do Ferreira, conforme Bomfim, a valorização do lugar só não é menor por conta da nova “Confraria dos Banqueiros”, um grupo de senhores com mais de 60 anos que mantêm a praça como ponto de encontro, de bate-papo, de integração social. Ao contrário das outras pessoas, eles não estão lá de passagem. Segundo Bomfim, todas as tardes, a partir das 16 horas, os sócios da Confraria costumam se encontrar na região. “É um momento de lazer, de boa conversa, como era de se esperar de um encontro em praça pública nos bancos da praça”

O documentário é uma declaração de amor a Fortaleza. A narrativa é feita sob o ponto de vista dos personagens, alternadamente. Cada um deles vê a praça e sua história de modo bem particular. Desta maneira, cada cena tem uma característica estética distinta, conforme o tema e o personagem protagonista. Essa estratégia é o grande diferencial do documentário, pois assim vão surgindo diversas histórias, contadas por seus protagonistas, com um formato estético condizente com o tema apresentado por cada um.

Entre os personagens que compõem o documentário está o ex-prefeito José Walter Cavalcante, responsável, nos anos 60, pela maior mudança estrutural da Praça do Ferreira, quando houve a retirada de bancos, a criação do jardim suspenso e a demolição do Abrigo Central. Obras que geraram muita polêmica. O arquiteto e compositor Fausto Nilo, autor do último projeto de reforma do lugar, também participa do documentário.

A lista de personagens que dão depoimento ainda inclui o jornalista, professor e escritor Gilmar de Carvalho, o escritor Juarez Leitão, o professor Batista de Lima, o teatrólogo Haroldo Serra, o pesquisador Nirez, o escritor Abelardo Montenegro, a jornalista Adísia Sá, o pesquisador Thomaz Pompeu, o empresário Pio Rodrigues, o historiador André Frota, além dos habituais freqüentadores da Praça. Antes da exibição do documentário, haverá apresentação da Camerata e do Coral da Unifor.

FIQUE POR DENTRO
Uma praça e muitas reformas

A Praça do Ferreira está situada entre as ruas Floriano Peixoto e Major Facundo e as travessas Pará e Pedro Borges, na região central – comercial e simbólica – da capital cearense. Até 1839, não passava de um campo de areia, quando era conhecida como Praça das Trincheiras. Na época, tinha um poço no centro, que funcionou até 1920, quando o então prefeito Godofredo Maciel fez uma reforma. Antes, no entanto, ganhou novo batismo, em homenagem ao Boticário Ferreira, que, em 1871, como presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, foi responsável por uma reforma e pela urbanização do espaço.

Em 1933, a Praça ganhou a Coluna da Hora, que seria derrubada em 1967. Depois de várias mudanças, a cacimba acabou soterrada e só foi descoberta em 1991, quando o local passou por nova reforma. A Praça do Ferreira é parte importante da história de Fortaleza. O lugar foi palco do principal movimento literário cearense, a Padaria Espiritual; de manifestações políticas em diversos momentos históricos; e da boemia que animava a noite da cidade no tempo em que tudo girava em torno do Centro. A Praça também foi testemunha da irreverência do povo cearense, que usou o local para vaiar o sol em um dia de janeiro de 1942.

DÉLIO ROCHA
Repórter

Mais informações:
Exibição do documentário ´Flertando com a Praça´, hoje, às 19h30, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro.
Fonte: Diário do Nordeste

Praça do Ferreira 2013

Praça do Ferreira 2013

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