{"id":1656,"date":"2011-02-27T06:37:03","date_gmt":"2011-02-27T09:37:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ascefort.com.br\/site\/?p=1656"},"modified":"2011-02-27T06:37:03","modified_gmt":"2011-02-27T09:37:03","slug":"voce-viveria-sua-vida-de-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/voce-viveria-sua-vida-de-novo\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea viveria sua vida de novo?"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; color: #000000; font-size: x-small;\">Saramago afirma que sim, viveria, repetidamente, ponto a ponto, sua vida de novo, da forma exata como foi. Para ser mais precisa e como dizemos aqui: &#8220;sem tirar nem p\u00f4r&#8221; ou &#8220;cuspido e escarrado&#8221; (por ora, dispenso os ensinamentos sobre a origem da express\u00e3o). E como deve ser bom ouvir isso da boca de algu\u00e9m. Querido, eu faria tudo de novo. Amor, eu me arriscaria pelas mesmas sendas. N\u00e3o deve ser f\u00e1cil ter toda essa disposi\u00e7\u00e3o. E talvez elas n\u00e3o sejam cem por cento verdade. A vida, como ela \u00e9, n\u00e3o passa de fic\u00e7\u00e3o, uma narrativa que a gente se conta o tempo todo.<\/p>\n<p>Quantas pessoas diriam &#8220;sim&#8221; \u00e0 pergunta? N\u00e3o sei entre meus parentes e amigos. Talvez meu filho ainda n\u00e3o possa responder. Eu mesma n\u00e3o juntei coragem. O que pensar? Acho que num ponto ou noutro eu remendaria uns espa\u00e7os em branco. Umas tantas incompreens\u00f5es ficariam destacadas e eu as reveria. Mania de revisor? O que anda errado aqui? N\u00e3o sei. N\u00e3o \u00e9 que esteja errado. Foi desvio. Onde estava meu caminho que n\u00e3o tive tempo de v\u00ea-lo? Nem sempre \u00e9 quest\u00e3o de enxergar apenas. V\u00e1 vivendo, numa levada Lob\u00e3o: dez anos a mil. Mas ele mesmo j\u00e1 passou dos cinquenta.<\/p>\n<p>Vida de editor. O que a mem\u00f3ria faz \u00e9 editar. O que foi mesmo, nem mesmo a mais fina percep\u00e7\u00e3o consegue capturar. Finjo que sei avaliar o que fui e o que sou. Finjo mais ainda saber o que serei. E n\u00e3o consigo responder se faria tudo outra vez. Esta cena antes daquela. O efeito sempre \u00e9 outro. E se isto? E se deste jeito? &#8220;E se&#8221; d\u00e1 sempre em algo irrespond\u00edvel. Mas d\u00e1 gosto pensar &#8220;e se&#8221; de vez em quando. \u00c9 quest\u00e3o que s\u00f3 incomoda quem n\u00e3o tem certeza de nada. Todo mundo? D\u00e1 conforto pensar que se tem qualquer certeza. Por que um caminho est\u00e1 errado? Por que a gente n\u00e3o se sente feliz? S\u00f3 pode ser. De outro lado, Paulo Leminski, aquele kamiquase curitibano, acertava meus ponteiros: &#8220;ningu\u00e9m nunca chegou atrasado&#8221;. A frase era algo que o valha, porque minha mem\u00f3ria, avessa \u00e0s decorebas, j\u00e1 editou o texto. Eu estava onde deveria estar, para o que o devir me desse. Assim fica mais f\u00e1cil viver. Melhor do que pensar de outro jeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o me arrisco a dizer um &#8220;sim&#8221; muito veemente. Nem sempre. Intermit\u00eancias. Lembro daqui e dali de uns desassossegos. Uns epis\u00f3dios, esparsos, tudo bem, mas que, provavelmente, teriam mudado tudo, inclusive (e principalmente) o lugar do \u00e1pice, a epifania e, mais, a conclus\u00e3o.\u00a0<em>The end<\/em> n\u00e3o seria este. Seria um outro, e termino por julgar: melhor?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que \u00e9 linear. Por mais que me deem aulas de f\u00edsica e me jurem que o tempo faz curvas, n\u00e3o enxergo com tanta nitidez o ciclo se fechar. S\u00f3 depois. E a\u00ed, j\u00e1 era. N\u00e3o adianta, adianta? Quantas vezes quis ver mais adiante para ver se valia a pena? Quantas vezes essa vontade (imposs\u00edvel) me doeu? Quantas vezes tive uma inveja doentia das simula\u00e7\u00f5es de computador? Diante de uma tela, posso ver se a disposi\u00e7\u00e3o dos quartos ficar\u00e1 boa ou se caber\u00e3o todos os meus m\u00f3veis. N\u00e3o, assim n\u00e3o d\u00e1. Melhor ficar como estava. Que imenso desejo de que existisse uma tecla &#8220;<em>undo<\/em>&#8220;, o ctrl+z, desfazer. Se n\u00e3o colou,\u00a0<em>back<\/em>.<\/p>\n<p>Inveja do &#8220;<em>delete<\/em>&#8220;, uma imensa m\u00e1goa porque ele n\u00e3o existe entre os escombros da minha mem\u00f3ria. Eu apago, mas, em geral, o que minha mente faz \u00e9 recontar tudo, reelaborar, de modo que nem eu posso mais confiar na narrativa dos &#8220;fatos&#8221; que penso ter vivido. Quem faria isso melhor do que um ser humano?<\/p>\n<p>Assisto ao\u00a0<em>Efeito borboleta<\/em> e quase surto. Mais e melhor do que ele, gasto uma tarde assistindo ao\u00a0<em>Irrevers\u00edvel<\/em> e meus dias ficam contados. E agora? N\u00e3o vou mais sair de casa, pensando na import\u00e2ncia (e no impacto) de cada pequena escolha, mesmo quando ela \u00e9 impercept\u00edvel para mim. Mas se eu n\u00e3o sair&#8230; tamb\u00e9m estarei escolhendo um caminho.<\/p>\n<p>E aquela gana irrefre\u00e1vel que d\u00e1 nas pessoas quando acontece uma trag\u00e9dia? Logo que o avi\u00e3o cai, o rio transborda, o carro bate, a encosta cede, v\u00eam todos lembrar das \u00faltimas palavras, que soam, ent\u00e3o, como previs\u00e3o, profecia e aviso. Bem que ele disse que queria se despedir das plantas. Ela abra\u00e7ou o cachorro e disse \u00e0 vizinha que n\u00e3o sabia se iria voltar. Minha m\u00e3e me beijou diferente hoje pela manh\u00e3. Ctrl+z.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei se viveria tudo de novo, deste jeitinho. Provavelmente quereria fazer o caminho que aparecia logo ao lado, para ver onde iria dar. E se pudesse concluir algo, faria ao g\u00eanio da l\u00e2mpada aquele terceiro pedido.<\/p>\n<p>Eu compraria aquela passagem? Naquele dia? Para aquele lugar? Eu diria aquele sim ou aceitaria aquele convite? Eu daria ou n\u00e3o daria as m\u00e3os? Recusaria aquele beijo? Leria aquele cap\u00edtulo? Furaria o sinal? Beberia mais aquele gole? Deixaria de sair? Eu acho, no final, que n\u00e3o saberia mesmo me repetir. <\/span><\/h6>\n<p><strong><span style=\"color: #000080;\">Por Ana Elisa Ribeiro<\/span><\/strong><br \/>\nDe Belo Horizonte\/MG<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saramago afirma que sim, viveria, repetidamente, ponto a ponto, sua vida de novo, da forma exata como foi. 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