{"id":1857,"date":"2006-03-01T14:53:44","date_gmt":"2006-03-01T17:53:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ascefort.com.br\/site\/?p=1857"},"modified":"2011-03-19T15:00:59","modified_gmt":"2011-03-19T18:00:59","slug":"etica-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/etica-na-politica\/","title":{"rendered":"\u00c9tica na Pol\u00edtica?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.baconfrito.com\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/maquiavel_201.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.baconfrito.com\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/maquiavel_201.jpg\" alt=\" \" width=\"211\" height=\"286\" \/><\/a><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial;\"> <\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-family: Arial;\">Da  <em>sagrada<\/em> ingenuidade dos c\u00e9ticos ao <\/span><em><span style=\"font-family: Arial;\">realismo  maquiav\u00e9lico<\/span><\/em><\/h2>\n<p><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que ponto a pol\u00edtica \u00e9 compat\u00edvel com a \u00e9tica? A pol\u00edtica pode  ser eficiente se incorporar a \u00e9tica? N\u00e3o seria puro moralismo exigir que a  pol\u00edtica considere os valores \u00e9ticos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se trata da rela\u00e7\u00e3o  entre \u00e9tica e pol\u00edtica n\u00e3o h\u00e1 respostas f\u00e1ceis. H\u00e1 mesmo quem considere que esta  \u00e9 uma falsa quest\u00e3o, em outras palavras, que \u00e9tica e pol\u00edtica s\u00e3o como a \u00e1gua e  o vinho: n\u00e3o se misturam. Quem pensa assim, adota uma postura que nega qualquer  v\u00ednculo da pol\u00edtica com a moral: os fins justificam os meios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u2018realismo pol\u00edtico\u2019, ou seja,  a busca de resultados a qualquer pre\u00e7o, subtrai os atos pol\u00edticos \u00e0 qualquer  avalia\u00e7\u00e3o moral, entendendo esta como restrita \u00e0 vida privada, dissociando o  indiv\u00edduo do coletivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta concep\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o  \u00e9tica e pol\u00edtica desconsidera que a moral tamb\u00e9m \u00e9 um fator social e como tal  n\u00e3o pode se restringir ao santu\u00e1rio da consci\u00eancia dos indiv\u00edduos. Em outras  palavras, embora a moral se manifeste pelo comportamento do indiv\u00edduo, ela  expressa uma exig\u00eancia da sociedade (um exemplo disso \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o dos diversos  &#8220;c\u00f3digos de \u00e9tica&#8221;). Ou seja, n\u00e3o leva em conta que a pol\u00edtica nega ou afirma  certa moral e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 avaliada pelo  comportamento e entendimento moral das pessoas. Ali\u00e1s, se a pol\u00edtica almeja  legitimidade n\u00e3o pode, entre outros fatores, dispensar o consenso dos cidad\u00e3os \u2014  o que pressup\u00f5e o apelo \u00e0 moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tamb\u00e9m os que, ingenuamente  ou n\u00e3o, adotam crit\u00e9rios moralizantes para julgar os atos pol\u00edticos. Por  conseguinte, condicionam a pol\u00edtica \u00e0 pureza abstrata reservada ao \u2018sagrado\u2019  espa\u00e7o da consci\u00eancia individual. Estes imaginam poder realizar a pol\u00edtica  apenas pelos meios puros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O moralismo abstrato concentra  a aten\u00e7\u00e3o na esfera da vida privada, do indiv\u00edduo. Portanto, aprisiona a  pol\u00edtica \u00e0 moral intimista e subjetiva deste. Ao centrar a aten\u00e7\u00e3o na esfera  individual, o moralista julga o governante t\u00e3o-somente por suas virtudes e  v\u00edcios, enfatizando suas esperan\u00e7as na transforma\u00e7\u00e3o moral dos  indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao agir assim reduz um problema  de teor social e coletivo a um problema individual. No limite, chega \u00e0 conclus\u00e3o  de que as quest\u00f5es sociais podem ser solucionadas se convencermos os indiv\u00edduos  isoladamente a contribu\u00edrem, por exemplo, dividindo sua riqueza como os  desafortunados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado \u00e9 catastr\u00f3fico: o  moralista angustia-se porque a pol\u00edtica n\u00e3o se enquadra nos seus valores morais  individuais e termina por renunciar \u00e0 pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Dessa forma,  contribui objetivamente para que prevale\u00e7a outra pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado o \u2018realismo  pol\u00edtico\u2019; de outro, o moralismo absoluto. Nem tanto mar, nem tanto terra. A  pol\u00edtica e a moral, embora expressem esferas de a\u00e7\u00e3o e de comportamento humano  espec\u00edficas e distintas, s\u00e3o igualmente importantes para a a\u00e7\u00e3o humana no  sentido da transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pol\u00edtica e moral s\u00e3o formas de  comportamento que n\u00e3o se identificam (a primeira enfatiza o coletivo; a segunda  o indiv\u00edduo). Nem a pol\u00edtica pode absorver a moral, nem esta pode ser reduzida \u00e0  pol\u00edtica. Embora sejam esferas diferentes, h\u00e1 a necessidade de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua  que n\u00e3o anule as caracter\u00edsticas particulares de cada uma. Portanto, nem a  ren\u00fancia \u00e0 pol\u00edtica em nome da moral; nem a exclus\u00e3o absoluta da  pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ainda fica a pergunta  inicial: \u00e9 poss\u00edvel a \u00e9tica na pol\u00edtica? Para uma resposta mais abrangente \u00e9  preciso analisar as diferen\u00e7as entre <strong>\u00e9tica<\/strong> e <strong>moral<\/strong> (conceitos que  usamos de forma indistinta).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9tica e  moral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nosso cotidiano enfrentamos  problemas morais e \u00e9ticos. Por exemplo: devo cumprir a promessa que fiz ao meu  amigo, embora venha a perceber que faz\u00ea-lo me causar\u00e1 preju\u00edzos? Sempre devo  dizer a verdade ou h\u00e1 ocasi\u00f5es em que a mentira n\u00e3o apenas se faz necess\u00e1ria  como ser\u00e1 ben\u00e9fica ao meu interlocutor? Devo persistir numa a\u00e7\u00e3o que moralmente  \u00e9 valorada como boa, mas cujas conseq\u00fc\u00eancias pr\u00e1ticas s\u00e3o extremamente  prejudicais a outrem? Se cumpro ordens posso ser julgado do ponto de vista  moral? Se meu amigo colabora com o inimigo devo denunci\u00e1-lo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o \u00e9tica \u00e9, portanto, uma quest\u00e3o  pr\u00e1tica que extrapola a pol\u00edtica \u2014 no sentido restrito da pol\u00edtica  institucional. \u00c9 interessante como se exige \u00e9tica na pol\u00edtica e, muitas vezes,  no \u00e2mbito da vida privada, procedemos de forma anti-\u00e9tica. Ali\u00e1s, determinados  casos pol\u00edticos onde se alardeia a exig\u00eancia da \u00e9tica, nada tem a ver com esta:  s\u00e3o, em suma, meros casos de pol\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta rela\u00e7\u00e3o direta com a realidade dos  indiv\u00edduos contribui para o entendimento comum que assemelha \u00e9tica \u00e0 moral e  toma uma pela outra. Um bom exemplo desta confus\u00e3o conceitual est\u00e1 na express\u00e3o  j\u00e1 consolidada no vocabul\u00e1rio as diversas profiss\u00f5es: os <em>c\u00f3digos de  \u00e9tica<\/em>. Na verdade s\u00e3o normas, regras procedimentos, que configuram, digamos,  um <em>c\u00f3digo de moral<\/em>. Observemos que mesmos os partidos pol\u00edticos t\u00eam os  seus c\u00f3digos de \u00e9tica!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9tica tem origem no grego <em>ethos<\/em>, que  significa <em>modo de ser<\/em>. A palavra <em>moral<\/em> vem do latim <em>mos <\/em>ou  <em>mores<\/em>, ou seja, costume ou costumes. A primeira \u00e9 uma ci\u00eancia sobre o  comportamento moral dos homens em sociedade e est\u00e1 relacionada \u00e0 Filosofia, isto  \u00e9, pergunta-se sobre a fundamenta\u00e7\u00e3o \u00faltima das quest\u00f5es. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma  de qualquer teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma determinada  realidade, elaborando os conceitos correspondentes. A segunda, como define o  fil\u00f3sofo V\u00c1ZQUEZ (1992), expressa &#8220;um conjunto de normas, aceitas livre e  conscientemente, que regulam o comportamento individual dos homens&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O campo da \u00e9tica \u00e9 diferente da moral: enquanto  tal n\u00e3o lhe cabe formular ju\u00edzo valorativo, mas sim explicar as raz\u00f5es e  proporcionar a reflex\u00e3o. A moral pressup\u00f5e regras de a\u00e7\u00e3o e imperativos  materializados em realidades hist\u00f3ricas concretas. A moral antecede \u00e0 pr\u00f3pria  \u00e9tica, \u00e9 normativa e se manifesta concretamente nas diferentes sociedades  enquanto resposta \u00e0s suas necessidades. Sua fun\u00e7\u00e3o consiste precisamente me  regulamentar as rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos e entre estes e a comunidade,  contribuindo para a estabilidade da ordem social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A moral n\u00e3o \u00e9 natural. Pelo contr\u00e1rio, resulta  da a\u00e7\u00e3o do homem enquanto ser social, hist\u00f3rico e pr\u00e1tico. Como fato hist\u00f3rico,  a moral corresponde aos diversos est\u00e1gios da evolu\u00e7\u00e3o da humanidade. A \u00e9tica  acompanha este desenvolvimento sem se reduzir \u00e0 moral. No entanto, ambas se  confundem porque a \u00e9tica parte de situa\u00e7\u00f5es concretas, isto \u00e9, dos fatos e  conseq\u00fcentemente da exist\u00eancia da moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explicitado as rela\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as entre  \u00e9tica e moral, retomemos o fio da meada: \u00e9 poss\u00edvel a \u00e9tica na pol\u00edtica? Se  seguirmos o itiner\u00e1rio da pol\u00edtica, dos gregos \u00e0 modernidade, verificaremos que  n\u00e3o h\u00e1 resposta simples nem \u00fanica. De um lado, a exig\u00eancia da \u00e9tica enquanto  componente da pol\u00edtica expressa o desejo da sua moraliza\u00e7\u00e3o. Como a moral \u00e9  essencialmente uma forma de comportamento relacionada com a consci\u00eancia  individual, seus crit\u00e9rios chocam-se com a esfera da pol\u00edtica enquanto atividade  coletiva. A pol\u00edtica pressup\u00f5e ainda confrontos e conflitos entre interesses de  grupos opostos e antag\u00f4nicos, o que potencializa ainda mais o choque com os  imperativos morais do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 apenas o interesse individual  que est\u00e1 em jogo, mas tamb\u00e9m os interesses de grupos e coletivos expressados  pelas a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos. \u00c9 verdade que muitas vezes aquilo que aparece como  algo pertinente \u00e0 coletividade, de fato mascara o interesse pessoal e  carreirista do pol\u00edtico que pede seu voto e que faz o discurso do bem  comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, mesmo este pol\u00edtico est\u00e1 preso aos  interesses dos grupos que financiam sua elei\u00e7\u00e3o e, de certa forma, precisa  mediatizar seu interesse ego\u00edsta com aquele do grupo social do qual faz parte ou  do qual depende financeiramente para dar v\u00f4os pol\u00edticos mais altos. Al\u00e9m do  mais, nem que se resuma \u00e0 mera ret\u00f3rica, ele necessita aparentar ser o que n\u00e3o  \u00e9: um defensor dos anseios coletivos, do bem-estar social da  coletividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, a moraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica  recoloca uma antiga problem\u00e1tica: a rela\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado. Foram  os gregos na antig\u00fcidade que inventaram o espa\u00e7o da pol\u00edtica enquanto express\u00e3o  da vontade coletiva, isto \u00e9, enquanto esfera da a\u00e7\u00e3o humana que submete a  vontade arbitr\u00e1ria e privada do poder pessoal do governante \u00e0s institui\u00e7\u00f5es  p\u00fablicas. Dessa forma, cunharam a distin\u00e7\u00e3o entre a autoridade p\u00fablica \u2014  express\u00e3o do coletivo \u2014 e autoridade privada \u2014 identificada com o d\u00e9spota, o  chefe de fam\u00edlia. A condi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u00e9 justamente a aus\u00eancia do  despotismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os fins justificam os  meios?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Maquiavel a pol\u00edtica atinge a maioridade e  \u00e9 concebida enquanto esfera aut\u00f4noma da vida social. A pol\u00edtica deixa de ser  pensada a partir da \u00e9tica e da religi\u00e3o. Neste sentido, Maquiavel representa uma  dupla ruptura: com os cl\u00e1ssicos da antiguidade greco-romana e com os valores  crist\u00e3os medievais. A pol\u00edtica deixa de ser pensada apenas no contexto da  filosofia e se constitui enquanto um campo de estudo independente, com regras e  din\u00e2mica livres de considera\u00e7\u00f5es privadas, morais, filos\u00f3ficas ou  religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Maquiavel, a pol\u00edtica identifica-se com o  espa\u00e7o do poder, enquanto atividade que na qual se assenta a exist\u00eancia coletiva  e que tem prioridade sobre as demais esferas da vida humana. A pol\u00edtica funde-se  com a realidade objetiva, com os problemas concretos das rela\u00e7\u00f5es entre os  homens: deixa de ser prescritiva \u2014 em torno de uma abstra\u00e7\u00e3o moral e ideal \u2014 e  passa a ser vista como uma t\u00e9cnica, com leis pr\u00f3prias, atinente ao cotidiano dos  indiv\u00edduos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Maquiavel a pol\u00edtica deve se preocupar com  as coisas como s\u00e3o, em toda sua crueza, e n\u00e3o com as coisas como deveriam ser,  com todo o moralismo que lhe \u00e9 subjacente. Ao libertar a pol\u00edtica da moral  religiosa, Maquiavel explicitou seu car\u00e1ter terreno e transformou-a em algo  pass\u00edvel de ser assimilado pelos comuns dos mortais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto teve um pre\u00e7o. N\u00e3o por acaso seu nome  virou adjetivo de coisa m\u00e1. Maquiavelismo virou sin\u00f4nimo de uma pr\u00e1tica pol\u00edtica  desprovida de moral e de boa f\u00e9, um procedimento astucioso e velhaco. De fato, o  florentino nada mais fez do que demonstrar a hipocrisia da moral da sua \u00e9poca,  isto \u00e9, mostrar como, por tr\u00e1s de uma moralidade que justificava a domina\u00e7\u00e3o dos  senhores feudais e da senhora feudal, a Igreja Cat\u00f3lica, a pol\u00edtica era cruel e  friamente praticada atrav\u00e9s de meios nada crist\u00e3os: trai\u00e7\u00f5es, assassinatos,  guerras etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pol\u00edtica explicitada e descrita em sua obra  com dezenas de exemplos retirados da hist\u00f3ria mais se assemelha ao inferno  dantesco do que ao para\u00edso prometido aos pobres camponeses, desde \u00e9 claro, que  eles se conformassem com a explora\u00e7\u00e3o e a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria em que viviam.  Ontem como hoje a recompensa ao conformismo est\u00e1 no p\u00f3s-morte, no al\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maquiavel n\u00e3o introduziu as pr\u00e1ticas amorais na  pol\u00edtica. A despeito de toda a moralidade, o \u2018maquiavelismo\u2019 que lhe imputam j\u00e1  se fazia presente antes dele escrever sua obra mais pol\u00eamica: <strong>O Pr\u00edncipe.<\/strong> Quem ler este livro sem levar em considera\u00e7\u00e3o e estudar minuciosamente o  contexto hist\u00f3rico no qual ele escreveu, n\u00e3o aprender\u00e1 nem far\u00e1 justi\u00e7a ao seu  autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Maquiavel cai por terra a fal\u00e1cia da  pol\u00edtica enquanto busca da justi\u00e7a, do bem comum etc. A fraseologia  crist\u00e3-medieval fundada na moral religiosa mascara o fundamento da pol\u00edtica e do  Estado: a manuten\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico em torno das classes dirigentes em cada  \u00e9poca hist\u00f3rica. Conquistar e manter o poder: eis em s\u00edntese a finalidade  essencial da pol\u00edtica. \u00c9 neste sentido que Maquiavel cunha sua famosa e mais  pol\u00eamica frase: &#8220;Os fins justificam os meios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito j\u00e1 foi dito e escrito sobre esta  assertiva. E ela permanece atual. Em primeiro lugar, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o reconhecer  que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre fins e meios. Como diria um revolucion\u00e1rio russo: &#8220;\u00c9  preciso semear um gr\u00e3o de trigo se se quiser obter uma espiga de trigo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre fins e meios, no  sentido de que h\u00e1 uma interdepend\u00eancia entre ambos. O problema \u00e9 o que a  afirma\u00e7\u00e3o maquiaveliana encerra em si: o que se pode e o que n\u00e3o se pode fazer  para atingir determinado fim? Se o fim \u00e9 justo, todos os meios  justificam-se?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta quest\u00e3o n\u00e3o pode ser satisfatoriamente  respondida sem equacionarmos outra que se coloca a priori: o que justifica o  fim? Ora, a realidade social na qual vivemos est\u00e1 longe de assemelhar-se ao  para\u00edso ou \u00e0 harmonia positivista da ordem e progresso. A ordem se mant\u00e9m a  ferro e fogo, isto \u00e9, a partir da oculta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es e mecanismos  de explora\u00e7\u00e3o e pelo uso do aparato repressivo estatal, sempre que se faz  necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, este s\u00e9culo, se pensarmos  filosoficamente e n\u00e3o apenas do ponto de vista tecnol\u00f3gico, enterrou a ilus\u00e3o  positivista \u2014 mas tamb\u00e9m iluminista e a leitura evolucionista marxista \u2014 de que  a humanidade marcharia sempre numa dire\u00e7\u00e3o progressista. Duas guerras mundiais,  o nazismo, o fascismo, o stalinismo, as ditaduras de esquerda e de direita etc.,  negam qualquer id\u00e9ia no sentido de uma evolu\u00e7\u00e3o linear positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo de um ponto de vista essencialmente  capitalista, o progresso \u00e9 um fracasso pois que toda a riqueza produzida com o  desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 concentrada cada vez mais em m\u00e3os de poucos,  aumentando o fosso entre ricos e pobres \u2014 e n\u00e3o precisa ser marxista para  verificar que a mis\u00e9ria aumenta no mundo, que a desigualdade cresce e que as  mazelas sociais atingem at\u00e9 mesmo os pa\u00edses mais poderosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, a quest\u00e3o dos fins est\u00e1 relacionada \u00e0  quest\u00e3o pol\u00edtica-social. Por\u00e9m, se entendemos a pol\u00edtica enquanto conflitos de  interesses entre grupos e classes sociais, a justifica\u00e7\u00e3o dos fins diz respeito  \u00e0s op\u00e7\u00f5es que fazemos quanto ao projeto pol\u00edtico. Evidentemente adotar uma ou  outra op\u00e7\u00e3o justificar\u00e1 este ou aquele fim. Numa sociedade onde impera a  desigualdade e as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o entre as classes e grupos  sociais, os fins n\u00e3o s\u00e3o universais, como tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9 a moral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justificado o fim pelo projeto social que  assumimos, podemos ent\u00e3o discutir se os fins justificam os meios. H\u00e1 uma  tradi\u00e7\u00e3o, que come\u00e7a com o pr\u00f3prio Maquiavel, que responde afirmativamente  (quanto a este \u00e9 preciso esclarecer que ele se refere ao Estado e n\u00e3o aos  procedimentos morais individuais). Se pensarmos na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concreta seria  ingenuidade, pr\u00f3pria de um moralismo abstrato desligado de contextos hist\u00f3ricos  concretos, imaginarmos que tanto a direita quanto a esquerda n\u00e3o justificou os  meios utilizados pelo fim perseguido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta an\u00e1lise nos coloca diante de problemas  concretos. Partindo do pressuposto que os fins buscados s\u00e3o diferentes, pode a  direita e a esquerda utilizar os mesmos meios? Quem luta pela liberdade pode  usar recursos ditatoriais, repressivos? Quem respeita a vida humana pode adotar  procedimentos de tortura assassinatos etc., em nome do objetivo pol\u00edtico? O que  diferencia uma ditadura de esquerda de outra de direita? O terrorista que luta  pela liberdade de seu pa\u00eds justifica os meios que utiliza e que,  invariavelmente, vitima inocentes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fins justificam os meios, \u00e9 verdade. Mas  apenas na medida em que estes meios n\u00e3o entram em contradi\u00e7\u00e3o com os fins  almejados. Quer dizer, nem tudo \u00e9 permitido! S\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel aquilo que contribui  para que se atinja o fim e que n\u00e3o represente a nega\u00e7\u00e3o deste. Toda a  experi\u00eancia do \u2018socialismo real\u2019 expressa a comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que n\u00e3o  basta proclamar certos fins \u2014 por mais justos que sejam \u2014 \u00e9 preciso encontrar os  meios adequados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se constr\u00f3i uma nova sociedade  utilizando-se os mesmos recursos predominantes na velha estrutura social. Os  marinheiros de Kronstadt, os camponeses da Ucr\u00e2nia e os trabalhadores oprimidos  por um Estado e um partido que governou ditatorialmente em seu nome que o digam.  Neste caso, os fins j\u00e1 s\u00e3o outros e muito diferentes dos enunciados.  Dialeticamente, os meios tamb\u00e9m mudaram e justificam-se pelos fins ora em pauta.  Maquiavel tinha raz\u00e3o..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9tica na Pol\u00edtica?<br \/>\nDa sagrada ingenuidade dos c\u00e9ticos ao realismo maquiav\u00e9lico.<\/p>\n","protected":false},"author":62,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-1857","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-noticias"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/62"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1857"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1857\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1861,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1857\/revisions\/1861"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}