{"id":6906,"date":"2012-09-01T20:03:26","date_gmt":"2012-09-01T23:03:26","guid":{"rendered":"http:\/\/ascefort.com.br\/site\/?p=6906"},"modified":"2013-02-05T20:14:33","modified_gmt":"2013-02-05T23:14:33","slug":"etica-na-politica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/etica-na-politica-2\/","title":{"rendered":"\u00c9tica na Pol\u00edtica?"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><strong><span style=\"font-family: Arial;\">Da\u00a0<em>sagrada<\/em>\u00a0ingenuidade dos c\u00e9ticos ao\u00a0<\/span><em><span style=\"font-family: Arial;\">realismo maquiav\u00e9lico.<\/span><\/em><\/strong><\/h5>\n<h2 style=\"text-align: justify;\" align=\"center\"><strong><em><\/em><\/strong><span style=\"font-family: Arial; font-size: 13px; font-weight: normal;\">At\u00e9 que ponto a pol\u00edtica \u00e9 compat\u00edvel com a \u00e9tica? A pol\u00edtica pode ser eficiente se incorporar a \u00e9tica? N\u00e3o seria puro moralismo exigir que a pol\u00edtica considere os valores \u00e9ticos?<\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Quando se trata da rela\u00e7\u00e3o entre \u00e9tica e pol\u00edtica n\u00e3o h\u00e1 respostas f\u00e1ceis. H\u00e1 mesmo quem considere que esta \u00e9 uma falsa quest\u00e3o, em outras palavras, que \u00e9tica e pol\u00edtica s\u00e3o como a \u00e1gua e o vinho: n\u00e3o se misturam. Quem pensa assim, adota uma postura que nega qualquer v\u00ednculo da pol\u00edtica com a moral: os fins justificam os meios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">O \u2018realismo pol\u00edtico\u2019, ou seja, a busca de resultados a qualquer pre\u00e7o, subtrai os atos pol\u00edticos \u00e0 qualquer avalia\u00e7\u00e3o moral, entendendo esta como restrita \u00e0 vida privada, dissociando o indiv\u00edduo do coletivo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Esta concep\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica desconsidera que a moral tamb\u00e9m \u00e9 um fator social e como tal n\u00e3o pode se restringir ao santu\u00e1rio da consci\u00eancia dos indiv\u00edduos. Em outras palavras, embora a moral se manifeste pelo comportamento do indiv\u00edduo, ela expressa uma exig\u00eancia da sociedade (um exemplo disso \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o dos diversos &#8220;c\u00f3digos de \u00e9tica&#8221;). Ou seja, n\u00e3o leva em conta que a pol\u00edtica nega ou afirma certa moral e que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pol\u00edtica tamb\u00e9m \u00e9 avaliada pelo comportamento e entendimento moral das pessoas. Ali\u00e1s, se a pol\u00edtica almeja legitimidade n\u00e3o pode, entre outros fatores, dispensar o consenso dos cidad\u00e3os \u2014 o que pressup\u00f5e o apelo \u00e0 moral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">H\u00e1 tamb\u00e9m os que, ingenuamente ou n\u00e3o, adotam crit\u00e9rios moralizantes para julgar os atos pol\u00edticos. Por conseguinte, condicionam a pol\u00edtica \u00e0 pureza abstrata reservada ao \u2018sagrado\u2019 espa\u00e7o da consci\u00eancia individual. Estes imaginam poder realizar a pol\u00edtica apenas pelos meios puros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">O moralismo abstrato concentra a aten\u00e7\u00e3o na esfera da vida privada, do indiv\u00edduo. Portanto, aprisiona a pol\u00edtica \u00e0 moral intimista e subjetiva deste. Ao centrar a aten\u00e7\u00e3o na esfera individual, o moralista julga o governante t\u00e3o-somente por suas virtudes e v\u00edcios, enfatizando suas esperan\u00e7as na transforma\u00e7\u00e3o moral dos indiv\u00edduos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Ao agir assim reduz um problema de teor social e coletivo a um problema individual. No limite, chega \u00e0 conclus\u00e3o de que as quest\u00f5es sociais podem ser solucionadas se convencermos os indiv\u00edduos isoladamente a contribu\u00edrem, por exemplo, dividindo sua riqueza como os desafortunados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">O resultado \u00e9 catastr\u00f3fico: o moralista angustia-se porque a pol\u00edtica n\u00e3o se enquadra nos seus valores morais individuais e termina por renunciar \u00e0 pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Dessa forma, contribui objetivamente para que prevale\u00e7a outra pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">De um lado o \u2018realismo pol\u00edtico\u2019; de outro, o moralismo absoluto. Nem tanto mar, nem tanto terra. A pol\u00edtica e a moral, embora expressem esferas de a\u00e7\u00e3o e de comportamento humano espec\u00edficas e distintas, s\u00e3o igualmente importantes para a a\u00e7\u00e3o humana no sentido da transforma\u00e7\u00e3o social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Pol\u00edtica e moral s\u00e3o formas de comportamento que n\u00e3o se identificam (a primeira enfatiza o coletivo; a segunda o indiv\u00edduo). Nem a pol\u00edtica pode absorver a moral, nem esta pode ser reduzida \u00e0 pol\u00edtica. Embora sejam esferas diferentes, h\u00e1 a necessidade de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua que n\u00e3o anule as caracter\u00edsticas particulares de cada uma. Portanto, nem a ren\u00fancia \u00e0 pol\u00edtica em nome da moral; nem a exclus\u00e3o absoluta da pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Mas, ainda fica a pergunta inicial: \u00e9 poss\u00edvel a \u00e9tica na pol\u00edtica? Para uma resposta mais abrangente \u00e9 preciso analisar as diferen\u00e7as entre\u00a0<strong>\u00e9tica<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>moral<\/strong>(conceitos que usamos de forma indistinta).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: Arial;\">\u00c9tica e moral<br \/>\n<\/span><\/strong><span style=\"font-family: Arial;\">Em nosso cotidiano enfrentamos problemas morais e \u00e9ticos. Por exemplo: devo cumprir a promessa que fiz ao meu amigo, embora venha a perceber que faz\u00ea-lo me causar\u00e1 preju\u00edzos? Sempre devo dizer a verdade ou h\u00e1 ocasi\u00f5es em que a mentira n\u00e3o apenas se faz necess\u00e1ria como ser\u00e1 ben\u00e9fica ao meu interlocutor? Devo persistir numa a\u00e7\u00e3o que moralmente \u00e9 valorada como boa, mas cujas conseq\u00fc\u00eancias pr\u00e1ticas s\u00e3o extremamente prejudicais a outrem? Se cumpro ordens posso ser julgado do ponto de vista moral? Se meu amigo colabora com o inimigo devo denunci\u00e1-lo?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">A quest\u00e3o \u00e9tica \u00e9, portanto, uma quest\u00e3o pr\u00e1tica que extrapola a pol\u00edtica \u2014 no sentido restrito da pol\u00edtica institucional. \u00c9 interessante como se exige \u00e9tica na pol\u00edtica e, muitas vezes, no \u00e2mbito da vida privada, procedemos de forma anti-\u00e9tica. Ali\u00e1s, determinados casos pol\u00edticos onde se alardeia a exig\u00eancia da \u00e9tica, nada tem a ver com esta: s\u00e3o, em suma, meros casos de pol\u00edcia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Esta rela\u00e7\u00e3o direta com a realidade dos indiv\u00edduos contribui para o entendimento comum que assemelha \u00e9tica \u00e0 moral e toma uma pela outra. Um bom exemplo desta confus\u00e3o conceitual est\u00e1 na express\u00e3o j\u00e1 consolidada no vocabul\u00e1rio as diversas profiss\u00f5es: os\u00a0<em>c\u00f3digos de \u00e9tica<\/em>. Na verdade s\u00e3o normas, regras procedimentos, que configuram, digamos, um\u00a0<em>c\u00f3digo de moral<\/em>. Observemos que mesmos os partidos pol\u00edticos t\u00eam os seus c\u00f3digos de \u00e9tica!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">\u00c9tica tem origem no grego\u00a0<em>ethos<\/em>, que significa\u00a0<em>modo de ser<\/em>. A palavra\u00a0<em>moral<\/em>\u00a0vem do latim\u00a0<em>mos\u00a0<\/em>ou\u00a0<em>mores<\/em>, ou seja, costume ou costumes. A primeira \u00e9 uma ci\u00eancia sobre o comportamento moral dos homens em sociedade e est\u00e1 relacionada \u00e0 Filosofia, isto \u00e9, pergunta-se sobre a fundamenta\u00e7\u00e3o \u00faltima das quest\u00f5es. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma de qualquer teoria: explicar, esclarecer ou investigar uma determinada realidade, elaborando os conceitos correspondentes. A segunda, como define o fil\u00f3sofo V\u00c1ZQUEZ (1992), expressa &#8220;um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual dos homens&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">O campo da \u00e9tica \u00e9 diferente da moral: enquanto tal n\u00e3o lhe cabe formular ju\u00edzo valorativo, mas sim explicar as raz\u00f5es e proporcionar a reflex\u00e3o. A moral pressup\u00f5e regras de a\u00e7\u00e3o e imperativos materializados em realidades hist\u00f3ricas concretas. A moral antecede \u00e0 pr\u00f3pria \u00e9tica, \u00e9 normativa e se manifesta concretamente nas diferentes sociedades enquanto resposta \u00e0s suas necessidades. Sua fun\u00e7\u00e3o consiste precisamente me regulamentar as rela\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos e entre estes e a comunidade, contribuindo para a estabilidade da ordem social.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">A moral n\u00e3o \u00e9 natural. Pelo contr\u00e1rio, resulta da a\u00e7\u00e3o do homem enquanto ser social, hist\u00f3rico e pr\u00e1tico. Como fato hist\u00f3rico, a moral corresponde aos diversos est\u00e1gios da evolu\u00e7\u00e3o da humanidade. A \u00e9tica acompanha este desenvolvimento sem se reduzir \u00e0 moral. No entanto, ambas se confundem porque a \u00e9tica parte de situa\u00e7\u00f5es concretas, isto \u00e9, dos fatos e conseq\u00fcentemente da exist\u00eancia da moral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Explicitado as rela\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as entre \u00e9tica e moral, retomemos o fio da meada: \u00e9 poss\u00edvel a \u00e9tica na pol\u00edtica? Se seguirmos o itiner\u00e1rio da pol\u00edtica, dos gregos \u00e0 modernidade, verificaremos que n\u00e3o h\u00e1 resposta simples nem \u00fanica. De um lado, a exig\u00eancia da \u00e9tica enquanto componente da pol\u00edtica expressa o desejo da sua moraliza\u00e7\u00e3o. Como a moral \u00e9 essencialmente uma forma de comportamento relacionada com a consci\u00eancia individual, seus crit\u00e9rios chocam-se com a esfera da pol\u00edtica enquanto atividade coletiva. A pol\u00edtica pressup\u00f5e ainda confrontos e conflitos entre interesses de grupos opostos e antag\u00f4nicos, o que potencializa ainda mais o choque com os imperativos morais do indiv\u00edduo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Na pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 apenas o interesse individual que est\u00e1 em jogo, mas tamb\u00e9m os interesses de grupos e coletivos expressados pelas a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos. \u00c9 verdade que muitas vezes aquilo que aparece como algo pertinente \u00e0 coletividade, de fato mascara o interesse pessoal e carreirista do pol\u00edtico que pede seu voto e que faz o discurso do bem comum.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Mas, mesmo este pol\u00edtico est\u00e1 preso aos interesses dos grupos que financiam sua elei\u00e7\u00e3o e, de certa forma, precisa mediatizar seu interesse ego\u00edsta com aquele do grupo social do qual faz parte ou do qual depende financeiramente para dar v\u00f4os pol\u00edticos mais altos. Al\u00e9m do mais, nem que se resuma \u00e0 mera ret\u00f3rica, ele necessita aparentar ser o que n\u00e3o \u00e9: um defensor dos anseios coletivos, do bem-estar social da coletividade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Por outro lado, a moraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica recoloca uma antiga problem\u00e1tica: a rela\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado. Foram os gregos na antig\u00fcidade que inventaram o espa\u00e7o da pol\u00edtica enquanto express\u00e3o da vontade coletiva, isto \u00e9, enquanto esfera da a\u00e7\u00e3o humana que submete a vontade arbitr\u00e1ria e privada do poder pessoal do governante \u00e0s institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Dessa forma, cunharam a distin\u00e7\u00e3o entre a autoridade p\u00fablica \u2014 express\u00e3o do coletivo \u2014 e autoridade privada \u2014 identificada com o d\u00e9spota, o chefe de fam\u00edlia. A condi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica \u00e9 justamente a aus\u00eancia do despotismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: Arial;\">Os fins justificam os meios?<br \/>\n<\/span><\/strong><span style=\"font-family: Arial;\">Com Maquiavel a pol\u00edtica atinge a maioridade e \u00e9 concebida enquanto esfera aut\u00f4noma da vida social. A pol\u00edtica deixa de ser pensada a partir da \u00e9tica e da religi\u00e3o. Neste sentido, Maquiavel representa uma dupla ruptura: com os cl\u00e1ssicos da antiguidade greco-romana e com os valores crist\u00e3os medievais. A pol\u00edtica deixa de ser pensada apenas no contexto da filosofia e se constitui enquanto um campo de estudo independente, com regras e din\u00e2mica livres de considera\u00e7\u00f5es privadas, morais, filos\u00f3ficas ou religiosas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Em Maquiavel, a pol\u00edtica identifica-se com o espa\u00e7o do poder, enquanto atividade que na qual se assenta a exist\u00eancia coletiva e que tem prioridade sobre as demais esferas da vida humana. A pol\u00edtica funde-se com a realidade objetiva, com os problemas concretos das rela\u00e7\u00f5es entre os homens: deixa de ser prescritiva \u2014 em torno de uma abstra\u00e7\u00e3o moral e ideal \u2014 e passa a ser vista como uma t\u00e9cnica, com leis pr\u00f3prias, atinente ao cotidiano dos indiv\u00edduos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Para Maquiavel a pol\u00edtica deve se preocupar com as coisas como s\u00e3o, em toda sua crueza, e n\u00e3o com as coisas como deveriam ser, com todo o moralismo que lhe \u00e9 subjacente. Ao libertar a pol\u00edtica da moral religiosa, Maquiavel explicitou seu car\u00e1ter terreno e transformou-a em algo pass\u00edvel de ser assimilado pelos comuns dos mortais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Isto teve um pre\u00e7o. N\u00e3o por acaso seu nome virou adjetivo de coisa m\u00e1. Maquiavelismo virou sin\u00f4nimo de uma pr\u00e1tica pol\u00edtica desprovida de moral e de boa f\u00e9, um procedimento astucioso e velhaco. De fato, o florentino nada mais fez do que demonstrar a hipocrisia da moral da sua \u00e9poca, isto \u00e9, mostrar como, por tr\u00e1s de uma moralidade que justificava a domina\u00e7\u00e3o dos senhores feudais e da senhora feudal, a Igreja Cat\u00f3lica, a pol\u00edtica era cruel e friamente praticada atrav\u00e9s de meios nada crist\u00e3os: trai\u00e7\u00f5es, assassinatos, guerras etc.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">A pol\u00edtica explicitada e descrita em sua obra com dezenas de exemplos retirados da hist\u00f3ria mais se assemelha ao inferno dantesco do que ao para\u00edso prometido aos pobres camponeses, desde \u00e9 claro, que eles se conformassem com a explora\u00e7\u00e3o e a situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria em que viviam. Ontem como hoje a recompensa ao conformismo est\u00e1 no p\u00f3s-morte, no al\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Maquiavel n\u00e3o introduziu as pr\u00e1ticas amorais na pol\u00edtica. A despeito de toda a moralidade, o \u2018maquiavelismo\u2019 que lhe imputam j\u00e1 se fazia presente antes dele escrever sua obra mais pol\u00eamica:\u00a0<strong>O Pr\u00edncipe.<\/strong>\u00a0Quem ler este livro sem levar em considera\u00e7\u00e3o e estudar minuciosamente o contexto hist\u00f3rico no qual ele escreveu, n\u00e3o aprender\u00e1 nem far\u00e1 justi\u00e7a ao seu autor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Com Maquiavel cai por terra a fal\u00e1cia da pol\u00edtica enquanto busca da justi\u00e7a, do bem comum etc. A fraseologia crist\u00e3-medieval fundada na moral religiosa mascara o fundamento da pol\u00edtica e do Estado: a manuten\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico em torno das classes dirigentes em cada \u00e9poca hist\u00f3rica. Conquistar e manter o poder: eis em s\u00edntese a finalidade essencial da pol\u00edtica. \u00c9 neste sentido que Maquiavel cunha sua famosa e mais pol\u00eamica frase: &#8220;Os fins justificam os meios\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Muito j\u00e1 foi dito e escrito sobre esta assertiva. E ela permanece atual. Em primeiro lugar, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o reconhecer que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre fins e meios. Como diria um revolucion\u00e1rio russo: &#8220;\u00c9 preciso semear um gr\u00e3o de trigo se se quiser obter uma espiga de trigo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre fins e meios, no sentido de que h\u00e1 uma interdepend\u00eancia entre ambos. O problema \u00e9 o que a afirma\u00e7\u00e3o maquiaveliana encerra em si: o que se pode e o que n\u00e3o se pode fazer para atingir determinado fim? Se o fim \u00e9 justo, todos os meios justificam-se?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Esta quest\u00e3o n\u00e3o pode ser satisfatoriamente respondida sem equacionarmos outra que se coloca a priori: o que justifica o fim? Ora, a realidade social na qual vivemos est\u00e1 longe de assemelhar-se ao para\u00edso ou \u00e0 harmonia positivista da ordem e progresso. A ordem se mant\u00e9m a ferro e fogo, isto \u00e9, a partir da oculta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es e mecanismos de explora\u00e7\u00e3o e pelo uso do aparato repressivo estatal, sempre que se faz necess\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Por outro lado, este s\u00e9culo, se pensarmos filosoficamente e n\u00e3o apenas do ponto de vista tecnol\u00f3gico, enterrou a ilus\u00e3o positivista \u2014 mas tamb\u00e9m iluminista e a leitura evolucionista marxista \u2014 de que a humanidade marcharia sempre numa dire\u00e7\u00e3o progressista. Duas guerras mundiais, o nazismo, o fascismo, o stalinismo, as ditaduras de esquerda e de direita etc., negam qualquer id\u00e9ia no sentido de uma evolu\u00e7\u00e3o linear positiva.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Mesmo de um ponto de vista essencialmente capitalista, o progresso \u00e9 um fracasso pois que toda a riqueza produzida com o desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 concentrada cada vez mais em m\u00e3os de poucos, aumentando o fosso entre ricos e pobres \u2014 e n\u00e3o precisa ser marxista para verificar que a mis\u00e9ria aumenta no mundo, que a desigualdade cresce e que as mazelas sociais atingem at\u00e9 mesmo os pa\u00edses mais poderosos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Assim, a quest\u00e3o dos fins est\u00e1 relacionada \u00e0 quest\u00e3o pol\u00edtica-social. Por\u00e9m, se entendemos a pol\u00edtica enquanto conflitos de interesses entre grupos e classes sociais, a justifica\u00e7\u00e3o dos fins diz respeito \u00e0s op\u00e7\u00f5es que fazemos quanto ao projeto pol\u00edtico. Evidentemente adotar uma ou outra op\u00e7\u00e3o justificar\u00e1 este ou aquele fim. Numa sociedade onde impera a desigualdade e as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o entre as classes e grupos sociais, os fins n\u00e3o s\u00e3o universais, como tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9 a moral.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Justificado o fim pelo projeto social que assumimos, podemos ent\u00e3o discutir se os fins justificam os meios. H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o, que come\u00e7a com o pr\u00f3prio Maquiavel, que responde afirmativamente (quanto a este \u00e9 preciso esclarecer que ele se refere ao Estado e n\u00e3o aos procedimentos morais individuais). Se pensarmos na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concreta seria ingenuidade, pr\u00f3pria de um moralismo abstrato desligado de contextos hist\u00f3ricos concretos, imaginarmos que tanto a direita quanto a esquerda n\u00e3o justificou os meios utilizados pelo fim perseguido.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Esta an\u00e1lise nos coloca diante de problemas concretos. Partindo do pressuposto que os fins buscados s\u00e3o diferentes, pode a direita e a esquerda utilizar os mesmos meios? Quem luta pela liberdade pode usar recursos ditatoriais, repressivos? Quem respeita a vida humana pode adotar procedimentos de tortura assassinatos etc., em nome do objetivo pol\u00edtico? O que diferencia uma ditadura de esquerda de outra de direita? O terrorista que luta pela liberdade de seu pa\u00eds justifica os meios que utiliza e que, invariavelmente, vitima inocentes?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">Os fins justificam os meios, \u00e9 verdade. Mas apenas na medida em que estes meios n\u00e3o entram em contradi\u00e7\u00e3o com os fins almejados. Quer dizer, nem tudo \u00e9 permitido! S\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel aquilo que contribui para que se atinja o fim e que n\u00e3o represente a nega\u00e7\u00e3o deste. Toda a experi\u00eancia do \u2018socialismo real\u2019 expressa a comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que n\u00e3o basta proclamar certos fins \u2014 por mais justos que sejam \u2014 \u00e9 preciso encontrar os meios adequados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: Arial;\">N\u00e3o se constr\u00f3i uma nova sociedade utilizando-se os mesmos recursos predominantes na velha estrutura social. Os marinheiros de Kronstadt, os camponeses da Ucr\u00e2nia e os trabalhadores oprimidos por um Estado e um partido que governou ditatorialmente em seu nome que o digam. Neste caso, os fins j\u00e1 s\u00e3o outros e muito diferentes dos enunciados. Dialeticamente, os meios tamb\u00e9m mudaram e justificam-se pelos fins ora em pauta. Maquiavel tinha raz\u00e3o..<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da sagrada ingenuidade dos c\u00e9ticos ao realismo maquiav\u00e9lico<\/p>\n","protected":false},"author":62,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-6906","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-noticias"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/62"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6906"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6906\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6908,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6906\/revisions\/6908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}