{"id":8396,"date":"2013-12-21T14:42:21","date_gmt":"2013-12-21T17:42:21","guid":{"rendered":"http:\/\/ascefort.com.br\/site\/?p=8396"},"modified":"2013-12-21T14:52:49","modified_gmt":"2013-12-21T17:52:49","slug":"etica-na-escola-e-na-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/etica-na-escola-e-na-vida\/","title":{"rendered":"\u00c9tica na escola e na vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O peso hist\u00f3rico de um evento \u00e9 determinado pelo que lhe sucede. A pris\u00e3o dos mensaleiros tem tudo para ser um dos acontecimentos mais importantes da hist\u00f3ria brasileira em d\u00e9cadas, mas s\u00f3 os nossos pr\u00f3ximos passos dir\u00e3o se ser\u00e1 um ponto de inflex\u00e3o ou um ponto fora da curva. Se o mensal\u00e3o for o primeiro de muitos casos em que banqueiros, congressistas e ex-ministros v\u00e3o para a cadeia por seus delitos, as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es ver\u00e3o este ano como o ponto de virada. Se, pelo contr\u00e1rio, essas pris\u00f5es forem apenas a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra, um caso isolado em que as institui\u00e7\u00f5es funcionaram, ent\u00e3o os historiadores do futuro ver\u00e3o o mensal\u00e3o como uma curiosidade. \u00c9 dif\u00edcil prever, mas confesso que n\u00e3o vejo muitos motivos para justificar o otimismo a curto prazo. Porque ter uma Justi\u00e7a \u00e1gil e rigorosa contrariaria quatro pilares que me parecem basilares na forma\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro \u00e9 o corporativismo. Somos o pa\u00eds dos interesses de grupo. N\u00e3o pensamos nem agimos como indiv\u00edduos, mas como categorias. Uma das corpora\u00e7\u00f5es mais poderosas \u00e9 a dos advogados. \u00c9 muito numerosa (871 000 advogados no pa\u00eds, mais procuradores, juizes\u2026), organizada (a OAB \u00e9 t\u00e3o influente que tirou do Estado o poder de decidir quem pode ou n\u00e3o exercer a profiss\u00e3o) e poderosa: dos 100 congressistas mais importantes do pa\u00eds segundo o Diap, dezenove s\u00e3o advogados. Nosso sistema penal criou intermin\u00e1veis apelos, chicanas e exce\u00e7\u00f5es. Quanto mais longo \u00e9 um julgamento e quanto maior \u00e9 o n\u00famero de inst\u00e2ncias, maiores s\u00e3o a remunera\u00e7\u00e3o de advogados e a necessidade de ju\u00edzes e promotores. (\u201c\u00c9 a preserva\u00e7\u00e3o do direito de plena defesa dos r\u00e9us!\u201d, dir\u00e3o nossos caus\u00eddicos, cumprindo a regra de sempre apresentar a luta pelos benef\u00edcios corporativos como uma batalha pelo bem comum.) Precisar\u00edamos que os deputados-juristas mudassem um sistema que beneficia seus pares. \u00c9 dif\u00edcil. Ainda mais quando incr\u00edveis 38% dos nossos congressistas s\u00e3o r\u00e9us no STF.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo \u00e9 o nosso pendor crist\u00e3o-filossocialista de achar que todo criminoso \u00e9 v\u00edtima de um sistema social injusto, e n\u00e3o um agente capaz de fazer as pr\u00f3prias escolhas. Algu\u00e9m que merece nossa compaix\u00e3o, e n\u00e3o puni\u00e7\u00e3o. A ditadura durou 21 anos. mas seu rescaldo est\u00e1 sendo ainda mais longo: nossos legisladores ficaram com tanta (e justificada) ojeriza \u00e0s pris\u00f5es arbitr\u00e1rias de um regime de exce\u00e7\u00e3o que criaram um sistema em que \u00e9 improv\u00e1vel condenar algu\u00e9m com bom advogado. (Esse \u00e9 mais um dos casos em que a teoria da defesa dos despossu\u00eddos se transforma em uma pr\u00e1tica que garante a sua dana\u00e7\u00e3o, como em todos os populismos.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro \u00e9 a nossa secular desigualdade de renda. \u00c9 mais dif\u00edcil seguir o princ\u00edpio b\u00e1sico da democracia \u2014 a igualdade perante a lei \u2014 quando na sociedade h\u00e1 uma clivagem t\u00e3o aparente entre os que muitas vezes se comportam como se estivessem acima da lei e a grande maioria, abandonada pelo Estado e desprotegida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O quarto e mais importante de todos: verdade seja dita, n\u00e3o somos um povo que prima pela \u00e9tica. Basta ver os pol\u00edticos que elegemos para nos representar e o que eles fazem. Para aqueles que acreditam que, mesmo em um sistema democr\u00e1tico, nossos eleitos s\u00e3o piores do que seus eleitores no quesito \u00e9tica, conv\u00e9m ver os resultados de uma pesquisa Ibope de 2006 ( todos os dados aqui mencionados est\u00e3o em twitter.com\/gioschpe). Ela mostra que, apesar de a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o ser quase universal. 75% dos entrevistados confessam que, se eleitos para cargos p\u00fablicos, cometeriam ao menos um delito de uma lista contendo treze possibilidades (coisas como mudar de partido em troca de dinheiro, contratar empresas de familiares sem licita\u00e7\u00e3o, pagar despesas pessoais n\u00e3o autorizadas etc.). 69% dos entrevistados tamb\u00e9m admitem j\u00e1 ter transgredido leis para levar vantagem (dar caixinha ao guarda, sonegar impostos, inflar gastos m\u00e9dicos para o seguro-sa\u00fade etc.). Essa falta de \u00e9tica se irmana \u00e0 fraqueza do nosso aparato de Justi\u00e7a para dar origem a um ciclo vicioso em que h\u00e1 mais delinqu\u00eancia porque a confian\u00e7a na absolvi\u00e7\u00e3o \u00e9 grande, e o fato de tantos sermos delinquentes torna improv\u00e1vel a cria\u00e7\u00e3o de leis mais duras contra os delituosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como romper esse ciclo? S\u00f3 vejo dois caminhos. Um \u00e9 o de uma ditadura benevolente, que mude as leis na marra. Rejeito-o liminarmente. O segundo \u00e9 formando cidad\u00e3os melhores, que eleger\u00e3o representantes melhores e mais probos, que far\u00e3o melhores leis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa forma\u00e7\u00e3o pode vir de uma s\u00e9rie de fontes. Desde a fam\u00edlia at\u00e9 clubes de escoteiros, institui\u00e7\u00f5es religiosas etc. Mas o melhor candidato, disparado, \u00e9 o sistema educacional. Porque \u00e9 nele que crian\u00e7as e jovens passam boa parte do seu tempo, \u00e9 nele que s\u00e3o socializados, \u00e9 nele que aprendem sobre atos virtuosos de grandes homens e mulheres (e tamb\u00e9m sobre os nefastos) e nele est\u00e3o em um ambiente hier\u00e1rquico e regrado, onde h\u00e1 figuras de autoridade capazes de punir desvios de conduta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se um marciano chegasse ao nosso pa\u00eds e acompanhasse nossas discuss\u00f5es educacionais, acreditaria que somos o pa\u00eds cujo sistema educacional oferece a melhor forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica da gal\u00e1xia. O assunto \u00e9 infinitamente discutido e priorizado, a ponto de uma pesquisa da Unesco que tra\u00e7a o perfil do professorado brasileiro mostrar que para 72% de nossos mestres a finalidade mais importante da educa\u00e7\u00e3o deveria ser \u201cformar cidad\u00e3os conscientes\u201d \u2014 s\u00f3 9%, por contraste, falam em \u201cproporcionar conhecimentos b\u00e1sicos\u201d. Sabemos que essa miss\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sendo cumprida. Principalmente porque um sistema educacional n\u00e3o tem esse poder \u2014 a prega\u00e7\u00e3o de um professor n\u00e3o vai reverter os efeitos de uma sociedade permissiva e de um Judici\u00e1rio ineficazes. Mas tamb\u00e9m porque a pr\u00e1tica de nossas escolas \u00e9 o oposto de sua prega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escola brasileira \u00e9 anti\u00e9tica. Em geral, h\u00e1 desprezo pelos alunos e seus esfor\u00e7os. Os professores faltam ao trabalho uma enormidade. Fazem greves de meses, com motiva\u00e7\u00f5es muitas vezes pol\u00edticas, prejudicando gravemente o andamento dos estudos. Mesmo quando h\u00e1 aula, o tempo \u00e9 desperdi\u00e7ado. Uma pesquisa do ano passado do Banco Mundial mostrou que s\u00f3 64% do tempo previsto de aula \u00e9 gasto com tarefas de ensino \u2014 um ter\u00e7o dele \u00e9 perdido em outras atividades ou sem atividade alguma. Mesmo no tempo de aula, o despreparo docente \u00e9 aparente. As aulas s\u00e3o chat\u00e9rrimas; boa parte do tempo \u00e9 devotada a copiar mat\u00e9ria do quadro-negro \u2014 o que pode ser um \u00f3timo exerc\u00edcio de caligrafia e uma maneira de um professor despreparado preencher os cinq\u00fcenta minutos de aula, mas n\u00e3o tem nada a ver com educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Finalmente, quando todo esse processo \u00e9 avaliado, as fraudes s\u00e3o constantes: n\u00e3o me recordo de uma \u00fanica prova em toda a minha vida de estudante em que n\u00e3o houvesse cola. Em alguns casos, gritante. A grande maioria dos professores faz que n\u00e3o v\u00ea. No m\u00e1ximo d\u00e1 uma indireta. Que diferen\u00e7a do ambiente nas universidades americanas que cursei, em que a primeira p\u00e1gina de cada prova continha uma declara\u00e7\u00e3o de ader\u00eancia ao c\u00f3digo de \u00e9tica da universidade, cuja assinatura era obrigat\u00f3ria para todos os alunos, e que especificava a puni\u00e7\u00e3o para os coladores: expuls\u00e3o. Nunca vi sequer um aluno colando. H\u00e1 suporte emp\u00edrico para essa observa\u00e7\u00e3o casual: um estudo de dois acad\u00eamicos portugueses em 21 pa\u00edses mostrou o aluno brasileiro em quinto lugar no ranking da cola em universidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui h\u00e1 uma discuss\u00e3o conceitual importante. Muita gente ver\u00e1 esses dados e dir\u00e1 que a escola \u00e9 apenas um reflexo da sociedade. Se a sociedade brasileira \u00e9 desonesta, \u00e9 normal que a escola tamb\u00e9m o seja. O problema \u00e9 que, para avan\u00e7armos, precisaremos que as institui\u00e7\u00f5es sejam melhores do que a m\u00e9dia nacional. Enquanto nossa escola for um retrato do pa\u00eds, o pa\u00eds n\u00e3o mudar\u00e1. Temos de exigir das escolas um desempenho \u00e9tico superior. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Todas as for\u00e7as e incentivos existentes conduzem \u00e0 in\u00e9rcia. Mas s\u00e3o indispens\u00e1veis. A melhora educacional precisa vir antes da melhora social. Foi assim nos pa\u00edses de sucesso. Espero que seja assim aqui tamb\u00e9m. S\u00e3o os meus votos para 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte:<strong>\u00a0Veja .\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<span style=\"font-size: 1.17em;\">______________________________________________________<br \/>\n<span style=\"color: #0000ff;\"><em><strong>SOBRE\u00a0<\/strong><\/em><\/span><\/span><\/p>\n<div>\n<figure><a href=\"http:\/\/www.imil.org.br\/wp-content\/uploads\/userphoto\/45.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" title=\"Gustavo Ioschpe\" src=\"http:\/\/www.imil.org.br\/wp-content\/uploads\/userphoto\/45.jpg\" alt=\"Gustavo Ioschpe\" width=\"117\" height=\"150\" \/><\/a><\/figure>\n<div style=\"text-align: justify;\">Vencedor do Pr\u00eamio Jabuti 2005, pelo livro \u201cA ignor\u00e2ncia custa um mundo \u2013 o valor da educa\u00e7\u00e3o no desenvolvimento do Brasil\u201d, o economista Gustavo Ioschpe \u00e9 fundador e presidente da G7 Investimentos, empresa que atua na \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, e articulista da revista \u201cVeja\u201d. Foi colunista da \u201cFolha de S. Paulo\u201d, \u201cGazeta Vargas\u201d e revista \u201cEduca\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 autor dos livros: \u201cComo passar no vestibular da UFRGS\u201d (Artes e Of\u00edcios, 1995) e \u201cVestibular n\u00e3o \u00e9 o bicho\u201d (Artes e Of\u00edcios, 1996). Formado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Administra\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica pela Universidade da Pensilv\u00e2nia, Ioschpe fez mestrado em Economia Internacional e em Desenvolvimento Econ\u00f4mico pela Universidade de Yale, nos EUA.<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Reproduzida do:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.imil.org.br\/artigos\/tica-na-escola-na-vida\/\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.imil.org.br\/wp-content\/themes\/novoimil\/assets\/images\/logo_IMIL_site.png\" alt=\"Instituto Millenium\" \/><\/a><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pris\u00e3o dos mensaleiros tem tudo para ser um dos acontecimentos mais importantes da hist\u00f3ria brasileira em d\u00e9cadas<\/p>\n","protected":false},"author":62,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-8396","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-noticias"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8396","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/62"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8396"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8396\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8398,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8396\/revisions\/8398"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8396"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8396"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ascefort.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8396"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}